Berlim parece se renovar a cada estação. Todos falam da beleza da primavera e do prazer de curtir o verão. Mas, ao meu ver, o outono é subestimado e o inverno incompreendido. Ando pelas ruas, sinto o vento gelado, vejo as árvores secas, o céu acinzentado. Mesmo não vendo flores, frutos ou folhas, vejo uma beleza que me toca. Uma beleza elegante, nua, crua, monocromática, minimalista. É a natureza mostrando um lado que o homem burramente insiste em negar, mas que está presente na vida. É a beleza que há na tristeza, na solidão, na melancolia, no hibernar, no morrer. Olho as árvores e só consigo ver beleza. Vejo a beleza de se reciclar, de se mostar o lado sombrio e vejo acima de tudo a certeza do renascimento. Em breve essas árvores voltaram a brotar, sementes a germinar e as cores retornarão, as flores, os pássaros, o sol, a energia ativa. Mas agora, é o momento de instropecção, de reflexão, de reciclagem. E a natureza sabiamente nos mostra a importância de passarmos por esse processo periodicamente. Gostaria de, como essas árvores, também ter a liberdade de reciclar, de chorar, se sofrer, de hibernar… sem me esconder. Só sorrir, se divertir, cantar, dançar e pular, cansa. Vamos nos permitir morrer, para podermos renascer.